bem, aqui estou eu
de novo
ouvindo as boas e velhas
músicas
de novo,
sentindo tristeza,
a boa
tristeza
à moda antiga
em que as lágrimas
não chegam
a sair.
bom.
ouço mais um pouco.
a mente pode
consumir quantidades
mágicas de
memória
enquanto a noite se
desdobra
noite adentro,
enquanto outro charuto
é acesso,
como se pode ficar
terrivelmente amuado
quando velhas
músicas seguem-se
uma às
outras,
rostos são
lembradas,
rostos jovens,
como fatias novas de uma
maçã,
estão mortos
agora,
quase todos
eles
mortos
agora.
a aparente
beleza e
a aparente bravura,
se foram.
sentado aqui
permitindo que meus
melhores sentidos
sejam diluídos pela
melancolia,
um homem
velho,
lembrando
de novo,
olhando de cima
a baixo o bar imaginário
cheio de assentos
vazios,
pensando naquela
criança com os loucos
olhos
vermelhos
que sentava lá
enchendo o copo e
enchendo e enchendo e
enchendo
de novo
ao ponto da
imbecilidade,
agora lembrando,
ouvindo
de novo,
permitindo a idiotice
entrar
de novo,
somos todos
idiotas para sempre
idiotizados
para sempre.
alegremente.
agora.
eu lhes diria para ter um caso de amor fracassado, hemorróidas, dentes podres e beber vinho barato, para evitarem a ópera e o golfe e o xadrez, seguirem trocando a guarda de suas camas de parede em parede e depois eu lhes diria para terem outro caso de amor fracassado e nunca usar uma fita de seda na máquina de escrever, evitar os piqueniques em família ou serem fotografados em um jardim coberto de rosas; para lerem Hemingway apenas uma vez, pularem Faulkner ignorarem Gogol olharem fixo para as fotos de Gertrude Stein e ler Sherwood Anderson na cama comendo biscoitos Ritz água e sal, perceberem que as pessoas que não param de falar sobre liberação sexual na verdade estão mais assustadas do que vocês. para ouvirem E. Power Biggs debulhar o orgão no rádio enquanto estão fumando um Bull Durham no escuro numa cidade estranha restando apenas um dia pago de aluguel após terem desistido de tudo amigos, parentes e empregos. jamais se considerem superiores e/ ou dentro da média nem nunca tentem sê-lo. tenham um outro caso de amor fracassado. observem uma mosca sobre uma cortina de verão. jamais tentem ter sucesso. não joguem sinuca. deixem que uma fúria legítima tome conta de vocês quando seus carros estiverem com pneu no chão. tomem vitaminas mas não levantem pesos nem corram.
então depois disso tudo revertam o processo. tenham um bom caso de amor. e a coisa que talvez aprendam é que ninguém sabe nada - nem o Estado, nem os ratos nem a mangueira no jardim nem a Estrela Polar. e se por acaso vocês me pegarem ensinando numa classe de escrita criativa e me lerem este poema eu lhe darei um A com louvor bem no olho do cu.