quinta-feira, 7 de julho de 2011

Chacal 1

Palavra Corpo

a palavra vive no papel
com vírgulas hífens crases reticências
leva uma vida reclusa de carmelita decalça
corpo palavra
o corpo aprender a ler na rua
com manchetes de jornais
jogadas na cara pelo vento
com gírias palavrões
zoando no ouvido
com gritos sussurros
impressos na pele
palavra corpo
a palavra quer sair de si
a palavra quer cair no mundo
a palavra quer soar por aí
a palavra quer ir mais fundo
a palavra funda
a palavra quer
a palavra fala:
- eu quero um corpo !
corpo palavra
o corpo sabe letras com gosto
de carne osso unha e gente
o corpo lê nas entrelinhas
o corpo conhece os sinais
o corpo não mente
o corpo quer dizer o que sabe
o corpo sabe
o corpo quer
o corpo diz:
- fala palavra !!!
palavracorpo corpopalavra

personagens

Liza Minelli em Cabaret
Grouxo Marx
Alex (laranja mecanica)
Sabine
Norma Desmond
Frida
Penelope Cruz em Volver
Juno
Annie Hall
Noiva do Kill Bill
Natalie Portman em Closer

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Tradução (uma vertente)

O que eu sinto eu não ajo.

O que ajo não penso.

O que penso não sinto.

Do que sei sou ignorante.

Do que sinto não ignoro.

Não me entendo e ajo como se entendesse.
-Clarice Lispector
 
Adoro quando colocam em palavras aquilo que eu sinto e não sei descrever. Mais uma vez Clarice que tanto me identifico e que ao se fazer me faz entender.

domingo, 3 de julho de 2011

Mautner 3

PERFURO O VENTRE DA ESCURIDÃO

Perfuro o ventre da escuridão
onde as coisas se escondem
porque estão cheias de sim e de não e de confusão
e quando pergunto sobre qualquer assunto nunca
         respondem
São como coisas presas ao labirinto
com algemas nos pulsos e tudo
são cinco pras cinco e eu já me sinto
dentro do seu não e de um caixão de veludo

Toca teu samba, toca
e tortura meu ser com prazer de ser
a tortura como aquela coisa que nos choca
onde a alegria me enganava se dizendo a alegria de não ter

Não ter o quê?
Ora, tá na cara
não ter é não ter você                
seja com grilo ou seja odara

Luas de prata conseguem
fazer com que lentamente
as sensações das emoções naveguem
e invadam como as fadas minha mente

Doem-me todas as cicatrizes
e sinto as rugas das verrugas
Sei que és como atores e atrizes
e que sempre atacas quem te quer por em fugas

Tocas então mil serenatas
e antigas cantigas e rondós
depois mijas no chão como os cães vira-latas
e ficas falando de ti quando estamos a sós

É por isso que sinto todos estes e aquelas
dores incolores e na garganta estes nós
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas
poderiam expressar tão bem estes meus ós, ós, ós!

terça-feira, 21 de junho de 2011

O Baile

Poema que meu avô Zé fez pra minha vó Tania.


"Tudo que existe sobre a terra foi Deus quem criou;
Da solidão, fez-se o homem,
do amor, a mulher.
À imagem da mulher, criou a flor.
A mulher sonhou com flor,
nasceu a vaidade.
Da vaidade, brotou a mentira.
O homem acreditou na mentira e,
inventou a saudade..."

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mautner 2

CANTO IX


Nosso amor, esta ilusão
Está encerrado e frio
Acolchoado no colchão
E ainda assim eu me rio

Gozo às vezes e poso
De ser acima do Bem e do Mal
Mas quando convém me entroso
Sou mais sincero que o real do real

Cabelos cacheados
Cabelos lindos
Cabelos revoltados
São fios de antenas tinindo

Açucar doce
Café amargo
Antes eu me fosse
Mas não vou pois não me largo

Pois mesmo o calafrio é
Também tesão afeto
Quer tomar café?
É meu divertimento predileto

Esta cena é ambulante
Como um cigarro e assim eu brinco
No sarro em que te amarro que é amante e apaixonante
E com o qual, bem ou mal, eu brinco

A maçaneta
Não é o trinco
Assim como a corneta
Toca às cinco pras cinco

Te amo no poste
Ou na banheira
Quero você goste
Ou não goste, como queira

Manda ver o chicote
A noite inteira
Depois quero que você me bote
Na minha boca tua língua inteira

sábado, 18 de junho de 2011

Mautner

RAIOS DE AMOR


Amor é relâmpago mútuo
Por que será que só eu
Quando todo mundo da luz se esqueceu
Sou um raio que é penugem
Me levanto da nuvem e caio
Com vertigem na penugem
Me levanto da nuvem e caio
Com vertigem na folia
Sou a tua tempestade?
Sou como cavalo baio em pleno céu azul de maio
Com a força da maldade da saudade?
Se nosso amor está de luto
É só por causa da tua vontade
Se você quiser em menos de um minuto
Existirá o ah ah ah da alegria do meio dia
Da harmonia da eterna eternidade
Com total perenidade
E imensa felicidade
Eu sempre te escuto
Mesmo quando você está ausente no presente
Dentro ou fora dos esconderijos da cidade
É como a fumaça que passa e sai e se vai de um charuto
Que some e se consome e que tem o nome de felicidade
É como a bola que eu chuto
Com atletismo e num gol de máxima penalidade
Mesmo assim por teu amor e por você eu luto
Com toda a minha capacidade
O que eu sonho eu executo
Espero que assim você goste de mim
Como eu cujo amor atômico
E eletrônico é igual ao rugir
E crescer e surgir e nascer
De toda uma nova humana humanidade
Que se ama com sincera sinceridade
Como se fosse a eterna e doce primavera
Que sopra na copa de todos os coqueiros
E nos tambores de todas as cores
Flores e amores de nossos e vossos terreiros
Brasileiros da nova religiosidade
Que é a grande novidade
Com toda honestidade
Dos tempos atuais
Dos mais iluminados astrais
Que vem pra cima de nós e de vós
E de sei lá mais quem
Como o mais puro eterno futuro riso do neném
E da força do amém e da luz de Jesus lá no além da insanidade
De paixão no coração de velocidade
Para ela que caminha na velocidade da luz
Que tem todas as cores
E é invisível
É tudo ação e são maravilhas e horrores
Tudo é terrível e incrível
E nunca jamais o samba-jazz
A guerra e a paz ou os vampiros em seus retiros
Não tem história contada
Nem sabida ou conhecida ou considerada
Mas existe como toda coisa triste
E como toda lebre que corre vida afora
Toda hora bem alegre
Pois é acima do Bem e do Mal
Num espaço maluco onde ao mesmo tempo
De uma só vez o bem tem que vencer o Mal
No fim do fim enfim e assim sim afinal
Pois assim o quis
O quer e quererá
Aquele cujo nome não se diz
Nem ninguém nunca saberá
Pois já no tempo do Faraó
Passando por Jó e até o Bozó
Tudo é tudo e nada é nada numa coisa só
Até que surgisse
Alguém que disse:
"Misturando água com pó
Eu farei alguém que não tenha nem dó
Nem piedade
E a este ser não ser sequer darei o nome
De toda fome ciclone e no fim de mim
Sairão uma mulher e um "home"
Só por pura loucura divina
Que rima
É o que nos conta
Informação-explosão
Que deixa minha alma sem calma e tonta tanta
É a recente
E mais consciente
Mensagem
Que pode parecer bobagem
Mas vem provada com paciência
Pela nossa super-ciência
Da atualidade
Será que é mesmo?
Vive-se a esmo?
Que fatalidade!
E os problemas demográficos?
E os temas geográficos?
Tudo no fundo é imundo
Tudo cenas de cinema
Teatro ou tragi-comédia
Em Caixas ou em Ipanema
Mas o que mais importa
É que a grande porta
É a estrada da batucada morena
Que abriu uma avenida pelos céus celestiais
Nos guia como a melodia do uivo de uma hiena
O riso de um chacal
A voz da namorada pequena
E o tom do cantor de sambas e muamba tropical
Assim caminhamos
E trabalhamos e nos odiamos e amamos
Nada mal, como ponto final, etcétera e tal
O etcétera
E o idem-ipsa-ípsilon
Teve tem e terá
Tudo isso está e o todo é o um
O um menos dois
Igual a um
Quatro mais cinco = 1941